Excesso de leite e queda de quase 35% no pagamento aos produtores. Essa realidade é o que define mais um capítulo da suposta ”crise do leite” vivida pelos produtores cearenses. Em Quixeramobim, principal bacia leiteira do Estado, o litro do leite in natura está sendo comprado pelos usineiros a R$ 0,47. O presidente da Associação dos Agropecuaristas do Sertão Central (Aasec), Carlos Elói, afirma que o antes o litro do produto era comprado por R$ 0,72.
Para Elói, o revés no preço do leite bovino se deve à entrada de leite de outros estados, principalmente do Pará. Ele afirma que estoques de leite Longa Vida com lotes prestes a vencer estão sendo despejados no Ceará por estados da região Sul. Consequência dessa desorganização comercial, os produtores cearense poderão partir para outras atividades do campo. Sem equilíbrio no estoque, o leite vai subir e pode até faltar.
Para tentar solucionar tais problemas, representantes da Aasec estiveram reunidos com o titular da Secretaria de Desenvolvimento e Agricultura, Camilo Santana; além do presidente da Ematerce, José Maria Pimenta. Entre as propostas, surgiu a tributação do produto lácteo em 17%.
O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Quixeramobim, Cirilo Vidal, diz que além da cobrança do imposto a outros estados, a ampliação de distribuição do Programa Fome Zero no Ceará pode auxiliar na solução do problema.
Vidal denuncia também o comércio irregular do queijo mussarela. Segundo o agropecuarista, mais de 90% do produto que chega no Estado sem fiscalização e certificação sanitária vão para supermercados e pizzarias.
Além do prejuízo no campo, os consumidores estão sendo lesados. O litro do leite pasteurizado não baixou no mercado varejista. Continua sendo vendido ao preço médio de R$ 1,40. O Longa Vida custa R$ 2,50.
Em Crato, no Cariri, alguns produtores não conseguem obter vantagem com a venda do leite. Um litro de leite na porteira do curral está sendo vendido por R$ 0,50, passando pelos atravessadores e chegando ao consumidor por mais de R$ 1,00. ”No momento, com a fartura de pasto e, consequentemente, o aumento da produtividade, a oferta de leite é maior do que a procura. Quando o pasto diminuir, o preço aumenta”, afirma de forma otimista o produtor João Ribeiro, que já passou a venda de leite para os filhos.
No Centro- Sul do Estado, em Iguatu, a realidade de baixa é a mesma. Desde outubro de 2009 que o preço do leite vem caindo e agora o litro do produto chegou à média de R$ 0,54. Isso sem contar o sistema de extra-cota implantado pelos laticínios, que definem uma média para cada produtor e se a quantidade superá-la, o produto Serpa comprado por apenas R$ 048. "O preço é reduzido para os produtores, mas não cai para os consumidores nas prateleiras dos supermercados", observa o presidente da Unidade de Pecuária Iguatuense (Upeci), Mairton Palácio.
Até a primeira quinzena de outubro passado, o litro de leite vendido pelos produtores variava entre R$ 0,62 e R$ 0,72. Os laticínios reduziram o preço e houve uma queda de R$ 0,05, que permaneceu até o fim de 2009. A reclamação é geral. "No verão, temos de gastar mais com alimentação do rebanho, consumo de água e de energia", observa o produtor Laurindo Vieira Júnior. "Essa queda no valor da venda do produto significa prejuízo para o setor".
No período de agosto a janeiro, o sertão cearense vive a entressafra que significa queda na quantidade de leite e aumento no custo de produção. No verão, não há pastagem nativa e é preciso alimentar o gado com ração e capineira. Na entressafra, ocorre uma queda de produção e, por isso, era comum ocorrer a manutenção ou mesmo elevação do preço do produto. Entretanto, nos últimos três anos vêm ocorrendo um inverso. Palácio defende uma redução de preço também para os consumidores. "Queremos que as pessoas passem a consumir mais leite, tenham uma melhor alimentação".
Na cidade de Iguatu há três unidades captadoras de leite dos produtores da região. A produção diária é de 100 mil litros de leite. Há uma década era de 25 mil. Palácio observa que apesar das dificuldades, a pecuária leiteira ainda é a melhor opção de rentabilidade no campo, mas alerta para a crise que pode afetar seriamente o setor. "A luz amarela da crise está acesa".